Postcards from Scotland #9

‘quando viajas com alguém, tudo te é estranho’*

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Tenho a companhia da Txus, já o disse ontem, nesta breve estadia em Inverness. Cito muitas vezes, nestes postais que vou escrevendo daqui e dali, uma frase de Enrique Vila-Matas: ‘quando viajas com alguém, tudo te é estranho. Quando viajas só, o estranho és sempre tu’. Esta frase dá sentido a este postal e também às viagens que habituamente faço sozinha. Não é que não goste de companhia, e gosto particularmente da companhia da Txus, porque gosto dela, mas gosto – talvez sobretudo – de ser eu a estranha nos lugares e não de sentir que estes são estranhos. De qualquer maneira ontem, hoje e uma pequena parte de amanhã, são dedicados a tudo me ser estranho e não a ser eu a estranha em tudo.

Acordo no Bed&Breakfast da Ardconnel Street às 10h, passada já a hora do pequeno almoço que neste sítio se faz apenas até às 9h. Tomo banho, visto-me e saio. Desço os Market Brae Steps até à High Street onde tomo um café e um croissant numa esplanada. Combinei encontrar-me com a Txus às 11 menos 5 na estação dos autocarros. Pouco depois da hora combinada aí estou. Apanhamos o autocarro que pára em Drumnadrochit e a seguir em Urquhart Castle, nas margens do Loch Ness. Vamos falando em castelhano (a Txus é basca e eu não falo, lamentavelmente, basco) e admirando a paisagem tão tipicamente escocesa. Mais verde, colinas, montanhas, ovelhas, vacas, cavalos, cercas, bosques e o rio Ness que, dali a um instante se há-de converter no espantoso e gigantesco Loch Ness.

Em Urquhart há alguns turistas. As ruínas do castelo são muito bonitas e a paisagem é de cortar a respiração. Está, deve dizer-se, um dia glorioso, cheio de sol. Um dia como não esperamos encontrar na Escócia. Tivemos sorte, muita, com este dia, nesta paisagem sublime. Toda a gente alguma vez, acho eu, quis visitar o Loch Ness. Eu pelo menos tive sempre uma vaga ideia de aqui vir. Não para ver Nessie, o simpático monstro que está em toda a parte por aqui nos ‘recuerdos’ que se vendem aos turistas, mas creio que também por ele… quero dizer pela sugestão da sua, digamos, existência.

Andamos por ali apreciando tudo aquilo e, principalmente, tudo aquilo nesta luz magnífica, que ora é brilhante e quente, ora mais fria e nublada, depende de alguma nuvem que esconda ou destape o sol. Passamos ali mais de duas horas, subindo às torres, subindo e descendo escadas, olhando o imenso lago e falando muito. Sempre em castelhano, língua que nestes dois dias assumi tão completamente como minha que, sem querer, a uso já para falar com as outras pessoas, escoceses incluídos, para seu espanto. Tenho esta coisa com as línguas e os sotaques…. facilmente se me entranham, como se me tivessem desde sempre pertencido. Na verdade, pertencem-me.

Às duas horas voltamos a apanhar o autocarro para Drumnadrochit, uma pequena aldeia absolutamente turística – a ‘Nessieland’ – onde nos sentamos ao sol para comer. Tudo, ou quase tudo aqui é servido com ervilhas e batatas fritas. Comemos lasanha ao almoço e – pasme-se – era servida com batatas fritas e ervilhas cozidas (!). Depois de comer, bebemos um café noutro café, simpático e turístico. Andamos por ali um pouco, apanhamos o autocarro de regresso a Inverness, onde chegamos depois das cinco da tarde. Subimos ao castelo de Inverness, vagueamos pelas ruas, as mesmas de ontem, já que a cidade é muito pequena e hoje está muito tranquila e bonita, com a luz do sol e com menos bêbados que ontem pelas ruas. As pessoas têm todas um ar de veraneio e férias.

No castelo de Inverness o sol está quase a por-se e a vista sobre o rio Ness e as suas margens é soberba. Talvez se estivesse sozinha, ficasse por ali até o sol se por definitivamente, concluíndo o dia. Talvez ficasse por ali, sendo estranha, à espera de um por-do-sol em Inverness. Assim, como a Txus tem frio, procuramos um bar, bebemos uma cerveja e depois jantamos noutro sítio. Uma alemã que estava no meu grupo de trabalho no congresso também está no pub onde comemos e vem, naturalmente, cumprimentar-me. É um estranho mundo pequeno, este. Seja em que língua for. Amanhã vou para Estrasburgo e a Txus para Londres, por mais um par de dias, antes de voltarmos a casa e ao trabalho. Amanhã o castelhano deixará de ser a minha pátria e regressarei ao inglês e à sensação de que a estranha sou sempre eu. Seja em que língua for.

*Enrique Vila-Matas em ‘El Viaje Vertical’, livro que li em castelhano, editado pela Anagrama. Em Portugal, a Assírio e Alvim fez recentemente uma edição deste livro.

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