Cartoline di Roma #4

‘Roma è un tesoro e noi siamo tutti capitani’***

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Este postal é mais curto que os anteriores. Levantei-me às sete e meia, depois de ter dormido quatro horas e já são três da manhã. Apesar de ter acordado muito cedo, chego à Faculdade de Economia de Roma Tre um bocadinho depois das nove. Pouquíssima gente na sessão que será a última do meu grupo de trabalho. Estou ainda meia a dormir, apesar do duplo espresso que tomei. Quando acabamos, vamos (eu e o A.) beber mais café. O Diogo também chegou entretanto e ficamos na conversa. Peço ao primeiro que conte ao segundo a sua história hilariante com um monge budista de visita a Florença. A mesma primeira estória que me contou em Wageningen, tínhamos acabado de nos conhecer. Em 2007. Rimos-nos muito, outra vez, a estória é realmente hilariante, pode ser que um dia conte… e chega a hora de voltarmos, eu para uma sessão sobre vendedores de rua (street food, vá), porque me apetece, o Diogo já não sei para que grupo e o A. para casa, em Florença.

Toda a gente sabe que as despedidas me enervam. Mas algumas deixam um vazio tão imenso, um buraco tão fundo, que não sei o que fazer. O A. abraça-me. Diz-me coisas que só eu devo ouvir e saber. E eu fico triste enquanto o deixo para trás, na cadeira, à espera do amigo que o há-de levar a Termini. E entro triste na sala da sessão sobre street food. Há casos de NYC, França, Chad. Gosto especialmente do último. E do senhor que o apresenta. Ou é do vazio que sinto ainda ou é do esforço notável que o senhor faz para falar inglês, mas só me apetece agradecer-lhe. Almoço com o Diogo e quase no fim aparecem duas mulheres e uma delas, loira e de olhos azuis pergunta-me ‘are you Mrs. Figoeredo?’ ou qualquer coisa do género. Respondo que sou eu sim, mais i menos e, mais u, menos o. E ela diz que irá à conferência de Aveiro daqui a duas semanas e apresenta-se. Reconheço o nome, da lista de participantes. É grega. São as duas gregas, aliás. Ficamos para ali a conversar. Elas conhecem os outros gregos de quem tanto gosto. E, na verdade, gosto delas também, assim de repente.

A seguir ao almoço assisto a uma sessão plenária, no fim da qual estou morta de sono. Não porque os oradores me o provocaram – eram, ao contrário, interessantes – mas as 4 horas que dormi começam a pesar-me. Saio. Encontro mais umas quantas pessoas conhecidas, que ontem não tinha visto. Uma delas diz-me que tem recebido emails, de ou sobre mim, e que eu estou sempre a fazer muitas coisas. Tanta energia, diz. E eu naquele instante, que só me apetece morrer por um bocadinho, só lhe respondo que são demasiadas coisas, na verdade.

Refaço o caminho até à estação de metro da Basílica San Paolo e apanho o comboio. Sento-me num banco e ao meu lado está um menino pequeno. Está muito calor na rua, desde ontem. Tiro o mapa da mala e abano-me com ele. A criança olha para mim, curiosa. A certa altura desdobro o mapa e olho para ele e o menino murmura qualquer coisa que não percebo. Pergunto-lhe o que disse. E ele responde-me que tenho um mapa do tesouro. Os pais, de pé, riem-se. Eu respondo ao pequeno rapazinho que não é um mapa do tesouro, mas sim um mapa de Roma e aponto lugares no mapa: olha aqui o Coliseu, o Altar da Pátria, o rio Tevere, o Castelo de Santo Ângelo, a Fontana dinTrevi, o Campo de Fiori… e ele olha para o papel e volta a dizer que é um mapa do tesouro. ‘Bom’, respondo eu, ‘sim, é, em Roma há muitos tesouros, por isso faz sentido, acho eu, não achas?’. Os outros passageiros em volta riem-se e o rapazinho também… e eu pergunto-lhe quantos anos tem. Cinco, diz e acrescenta qualquer coisa que não entendo. Digo-lhe que não entendi, que não sou italiana e falo só um bocadinho de italiano. Ele repete que tem cinco anos mas já está na escola elementar. Diz aquilo com um suspiro fundo. Os pais riem-se e dizem que começou ontem, a escola.

‘E que fizeste até agora na escola?’ ‘Um desenho’, suspira. ‘Oh, sim, muito trabalho, não é? ‘ pergunto e diante do ar exausto que a criança faz, acrescento… ‘mas vais ver, aprender coisas novas é bom!’ Olha-me, duvidoso. Eu meto-lhe o mapa nas mãozinhas pequenas e digo:’toma, amanhã na escola podes desenhar Roma’. Ele volta a insistir que é um mapa do tesouro e que não vai ser capaz de o desenhar porque é muito grande e tem muitas coisas. ‘Ora, és capaz sim, ou se não fores, fazes o que conseguires’… Ele ri-se e diz que gosta de piratas. ‘Ah sim?’. Sim, ele e os amigos são todos piratas. Mas também gosta de capitães. E que o ‘Stefano, o Antonio, o Calogero (reconsidera rapidamente… ‘no, Calogero no… che se spaventa sempre!’*) e o Salvatore… brincam aos capitães. ‘E como te chamas tu?’ ‘Simone’. ‘Que nome tão bonito. E o dos teus amigos também’… sorri, contente… ‘si… e siamo tutti capitani!’ Claro que são! O pequeno capitão sai, com os pais, levando o mapa do tesouro consigo e dizendo-me ‘grazie, ciao’ várias vezes.

Eu vou até ao hotel. Durmo uma hora ou nem isso. Ouço a trovada lá fora, vagamente. A chuva embala-me até serem horas de ir para o jantar do congresso que não foi particularmente bom, devo dizer. O calor continuava insuportável ao jantar e nas ruas de Trastevere umas horas depois. Um calor cheio que nem a cerveja fresca ou a chuva ao fim da tarde desfizeram.

Chego tarde ao hotel. Pela primeira vez, por sugestão do Diogo, uso um Uber e gosto. No quarto está fresco. Alguém de Portugal, no facebook, me diz, um pouco mais tarde, ‘buonanotte principessa’ e eu faço um sorriso para o ecran, porque, além de ter sido simpático, me lembra aquela vez, há alguns anos, que em Arezzo, na bela praça central, alguém me gritou muito alto o mesmo, mas com bom dia. Um clássico, claro, depois de La Vita è Bella**. Sim, suponho que a vida seja bela, apesar de tudo, e que sejamos todos – e não apenas o Simone e os seus pequenos amigos – piratas e capitães, transportando connosco pequenos mapas do tesouro.

***Roma é um tesouro e nós somos todos capitães.
* Não o Calogero não, porque se assusta sempre
**La Vita è Bella é um filme de 1997, realizado por Roberto Benigni, que é também o ator principal. A cena em que ele grita ‘buongiorno principessa’ passa-se na principal praça de Arezzo, a Piazza Grande.

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